Mulheres já são maioria nos escritórios, mas ocupam menos da metade dos cargos de liderança
Levantamento realizado em 2024 aponta que advogadas representam 55% dos profissionais das bancas pesquisadas, enquanto participação nos postos seniores cai para 43%

As mulheres já ocupam a maior parte dos postos de trabalho nos escritórios de advocacia pesquisados no Brasil. Quando o recorte chega aos cargos mais altos, porém, o cenário se inverte: embora representem 55% dos profissionais, elas respondem por 43% das posições seniores.
Os dados fazem parte do estudo “50:50 até 2030”, da Associação Internacional dos Advogados (IBA), realizado em 2024. O levantamento ouviu 32 escritórios brasileiros, que somavam 4.885 profissionais, e considerou como posições seniores os postos de sócia e as cadeiras em conselhos executivos ou de administração.
Na prática, os números revelam um funil na progressão profissional feminina dentro da advocacia. A presença das mulheres é majoritária na composição geral das bancas, mas diminui justamente nos espaços ligados à liderança e à tomada de decisões.
O cenário ganha relevância diante da própria composição da advocacia brasileira. Dados do Perfil ADV, levantamento realizado pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) em parceria com a FGV Justiça, apontam que as mulheres correspondem a aproximadamente metade dos profissionais da área no país.
O que dificulta a chegada ao topo?
Para Nycolle Soares, advogada especialista em Direito Societário e gestão estratégica de escritórios, a explicação não está apenas na qualificação técnica. Ela aponta que redes profissionais, relacionamento com clientes e conhecimentos relacionados à administração dos escritórios também interferem na ascensão aos postos de comando.
“Durante muito tempo, os principais espaços de relacionamento, mentoria e geração de negócios do mercado jurídico foram construídos por e para homens. A mulher entrou na advocacia, conquistou espaço técnico, mas ainda encontra barreiras para acessar redes, clientes e conhecimentos de gestão que influenciam diretamente sua chegada à liderança”, afirma.
Marcela Campos, fundadora da Grow Gestão Legal e presidente da Comissão Especial de Controladoria Jurídica e Legal Ops do Conselho Federal da OAB, chama atenção para outra lacuna: a distância entre a formação jurídica e os conhecimentos necessários para administrar um negócio.
“A formação jurídica ensina a advogar, mas pouco fala sobre precificação, finanças, vendas, processos e estratégia. Quando uma advogada domina essas ferramentas, ela ganha mais autonomia para tomar decisões, estruturar seu escritório e crescer de maneira sustentável”, avalia.

Debate chega a Goiânia
É nesse contexto que Goiânia recebe, no dia 3 de outubro, uma imersão voltada à gestão, aos negócios e à liderança feminina na advocacia. O “AdvocaciA – Negócio de Mulher”, criado por Marcela Campos e Nycolle Soares, reunirá profissionais de diferentes regiões do país.
A programação prevê discussões sobre precificação, negociação, finanças, vendas, posicionamento, novas carreiras jurídicas e presença institucional. Também serão abordados temas relacionados à trajetória profissional feminina, como maternidade, sobrecarga, síndrome da impostora, imagem e comunicação.
Participam do encontro Fernanda Terra, Liz Vecci, Mariana Pádua, Bruna Rezende, Maísa Lemos, Anna de Castro, Marília Goulart, Ana Luiza Meggetto, Ludmila Torres, Kamilla Melo, Fernanda Moraes e Amanda Aguiar.
Uma das medidas adotadas pela organização será a concessão de 50% de desconto para advogadas com filhos de até seis meses. Segundo Nycolle, a iniciativa considera as dificuldades específicas enfrentadas pelas profissionais durante a maternidade.
“Falar em liderança feminina também exige reconhecer que as mulheres enfrentam condições diferentes para participar de eventos, construir redes e investir na carreira. A maternidade não pode ser um motivo para que uma profissional fique fora desses espaços”, destaca.
A imersão será realizada das 8h às 18h30, em Goiânia. Os ingressos partem de R$ 521, com modalidade que inclui mentoria com as organizadoras.
