Opinião na tela

Quando a política vira torcida, quem perde é você, eleitor

Rafael Lara Martins

(imagem: Larissa Melo)

A campanha eleitoral chegou. Diferente na forma e acompanhando uma transformação digital que parece não ter volta. A inteligência artificial já está nos cards, nos vídeos, nos jingles e nas estratégias de comunicação. Até nisso a política mudou.

O que não mudou foi a polarização. O país segue dividido. E candidatos que deveriam apresentar propostas e demonstrar preparo continuam gastando energia brigando entre si.

E esse ciclo contamina todo mundo.

Dia desses, ouvi de uma pessoa que ela votaria em determinado candidato mesmo sem conhecer suas propostas. A justificativa? Não gostava do outro.

É justamente aí que mora o problema. Político não foi feito para a gente gostar. Político foi feito para ser cobrado. Por preparo, propostas, coerência, resultados e responsabilidade com o poder que lhe foi temporariamente confiado.

Quando foi que começamos a ter políticos de estimação e achamos que isso bastava?

Há mais de dois séculos, Immanuel Kant lançou um chamado que permanece atual: Sapere aude. Tenha coragem de pensar por si mesmo.

Talvez essa coragem esteja fazendo falta. Quando defender um lado se torna mais importante do que compreender os fatos, o exercício crítico da cidadania dá lugar à torcida. E democracia não é campeonato.

E não me venham atribuir isso somente à inteligência artificial. A tecnologia pode potencializar nossas capacidades ou nossas limitações. Até para mandar na IA, como se diz popularmente, é preciso saber pensar.

Não cabe à OAB dizer em quem votar. Cabe defender o Estado Democrático de Direito e lembrar que o voto é instrumento de escolha, fiscalização e cobrança, não uma declaração de afeto.

Por isso, exijam propostas. Comparem trajetórias. Questionem promessas. Cobrem coerência.

No fim, pouco importa quem venceu a briga do dia nas redes sociais. Importa saber quem tem preparo para melhorar a vida de quem está fora delas.

Quando a política vira torcida, quem perde é você, eleitor.

Rafael Lara Martins
Advogado e Presidente da OAB-GO