Crônicas da Ágora
Sísifo tinha uma pedra; nós temos a segunda-feira
Blender Barbosa
Caro leitor, seja bem-vindo à Ágora.
Escrevo esta coluna ligeiramente comprometida diante de uma pilha de compromissos por resolver e um cachorro chamado Bento que me observa com o olhar de quem pretende fazer um escândalo por negligência recreativa (“bora pra pracinha”).
Bento quer passear. Eu também, Bento. Eu também.
Mas vamos por partes.
Sou jornalista, professor, especialista em Neuromarketing e, nas horas vagas, um jovem adulto tentando compreender em que momento exato a promessa de independência se transformou numa assinatura vitalícia de responsabilidades.
De fato, é maravilhoso ter liberdade para fazer o que quiser dentro da própria casa. Posso, por exemplo, deixar a louça na pia sem receber reclamações. Infelizmente, descobri que a louça permanece ali até que eu mesmo a lave. Uma experiência profundamente transcendental.
Jean-Paul Sartre dizia que o homem está condenado a ser livre. Esqueceu de acrescentar que também está condenado a limpar o banheiro.
E assim seguimos.
Todas as manhãs, visto minha armadura: capacete, jaqueta, uma mochila de proporções geológicas.
É nesse momento que me lembro de Sísifo.
Na mitologia grega, Sísifo foi condenado pelos deuses a empurrar eternamente uma pedra até o alto de uma montanha. Sempre que estava prestes a concluir a tarefa, a pedra rolava de volta. E ele precisava começar novamente.
Um castigo terrível.
Embora, convenhamos, Sísifo não precisava responder mensagens de WhatsApp enquanto empurrava a pedra.
Sísifo, perto de nós, tinha uma rotina relativamente organizada.
Albert Camus dedicou um ensaio ao mito de Sísifo. Para o filósofo, o absurdo nasce do confronto entre nossa necessidade humana de encontrar sentido e o silêncio indiferente do universo.
Queremos respostas. O universo oferece segunda-feira. Queremos justiça. O universo oferece reajuste do aluguel. Queremos felicidade. O universo oferece uma promoção de air fryer em doze parcelas.
E, mesmo assim, levantamos.
Há alguma coisa profundamente absurda na vida do trabalhador contemporâneo. Passamos a infância esperando crescer, a adolescência esperando conquistar independência e a vida adulta esperando a sexta-feira.
Na sexta, esperamos o sábado. No domingo, lamentamos a segunda. E, quando percebemos, estamos comemorando mais um aniversário sem saber exatamente o que aconteceu com os outros 364 dias.
O tempo passou. Nós também. Mas a pedra continua lá.
Karl Marx, ao analisar a alienação do trabalho, mostrou como o trabalhador pode se tornar estranho ao produto da própria atividade e, em determinadas condições, à própria humanidade.
Quase dois séculos depois, conseguimos aperfeiçoar o processo: agora o trabalhador também se sente alienado do próprio descanso.
Descansar provoca culpa.
Se estamos parados, deveríamos estar estudando. Se estamos estudando, deveríamos estar produzindo. Se estamos produzindo, deveríamos estar empreendendo. Se estamos empreendendo, deveríamos estar gravando vídeos ensinando outras pessoas a empreender.
A exploração descobriu uma maneira extraordinária de economizar supervisores: convenceu-nos a vigiar a nós mesmos. Olha só!
Michel Foucault ficaria impressionado com a eficiência desse mecanismo. Jeremy Bentham, idealizador do panóptico, talvez lamentasse não ter patenteado o LinkedIn.
E Friedrich Nietzsche, diante de tanta gente anunciando que acorda às quatro da manhã para vencer na vida, provavelmente decretaria uma segunda morte de Deus. Desta vez, por exaustão.
Os deuses mudaram de endereço
Os gregos tinham uma vantagem sobre nós: sabiam quem os castigava.
Zeus lançava raios. Poseidon provocava tempestades. Hades administrava os mortos. Cada divindade tinha suas atribuições, embora o ambiente organizacional do Olimpo fosse evidentemente tóxico.
Hoje, nossos deuses são mais discretos.
Chamam-se Mercado, Produtividade, Crescimento, Desempenho e Alta Performance.
Não exigem sacrifícios de animais. Preferem sacrifícios de almoços de família ou de ver os amigos.
Não habitam o Monte Olimpo. Moram em salas climatizadas, planilhas de Excel e apresentações sobre cultura organizacional.
E, diferentemente dos antigos deuses, nunca estão satisfeitos.
É curioso como uma sociedade capaz de produzir tanta riqueza continua tratando o descanso como um privilégio moral. Trabalhar muito virou virtude. Trabalhar até adoecer, demonstração de comprometimento. Questionar a lógica, falta de espírito de equipe.
O filósofo Byung-Chul Han descreve, em Sociedade do Cansaço, uma mudança importante: a exploração contemporânea não depende apenas de uma autoridade externa que ordena. O próprio indivíduo passa a se cobrar incessantemente, acreditando exercer sua liberdade.
O sujeito explora a si mesmo e ainda agradece pela oportunidade de crescimento.
É o sonho de qualquer tirano: um escravo que se considera empreendedor da própria servidão.
Talvez seja por isso que meu lado anarquista desconfie tanto das hierarquias e meu lado niilista desconfie das promessas.
Não acredito que a vida tenha recebido, de alguma autoridade cósmica, uma finalidade obrigatória. Tampouco acredito que alguém deva passar sua breve existência obedecendo a estruturas apenas porque elas existem há muito tempo.
Tradição, afinal, também é o nome elegante que damos a certos absurdos quando sobrevivem por gerações.
Mas não confundamos as coisas. Questionar o trabalho não significa desprezar quem trabalha. Muito pelo contrário.
Há uma dignidade imensa em quem acorda cedo, enfrenta ônibus lotado, atravessa a cidade, cuida dos filhos, paga contas e ainda encontra forças para sorrir.
O problema não é o trabalhador. É a necessidade de transformar seu sofrimento em medalha.
Bento não leu Camus. Talvez por isso seja mais feliz.
Outro dia, cheguei em casa depois de uma jornada de trabalho daquelas que fazem a alma pedir demissão do corpo.
Estacionei a moto, retirei a mochila (operação que deveria exigir autorização do Corpo de Bombeiros) e abri a porta.
Bento me recebeu como se eu tivesse retornado da Guerra de Troia. Pulou, correu, abanou o rabo e apresentou imediatamente sua reivindicação sindical: queria passear.
Expliquei que estava cansado. Ele ignorou.
Disse que precisava trabalhar no dia seguinte. Ele bocejou.
Argumentei que a existência humana é atravessada pelo absurdo, que a liberdade é uma construção angustiante e que o capitalismo tardio sequestrou nossa percepção do tempo. Ele não liga.
Foi uma derrota filosófica humillhante.
Mas saímos.
Enquanto ele investigava uma árvore com a seriedade de um perito, fiquei observando a rua. Já era tarde. As pessoas voltavam do trabalho, muitas carregando no rosto aquele cansaço que nenhuma noite de sono parece resolver.
E percebi que Bento não estava preocupado com a próxima semana. Não queria ser promovido a cachorro sênior. Não estava construindo uma marca pessoal no mercado pet.
Não precisava transformar o passeio em conteúdo, monetizar a experiência ou elaborar um plano estratégico de expansão territorial.
Queria apenas cheirar uma árvore.
Arthur Schopenhauer, pessimista de primeira categoria, compreendia a existência como atravessada por um querer incessante: desejamos, sofremos pela falta e, quando conseguimos, logo encontramos outro motivo para desejar.
Bento, aparentemente, encontrou uma solução provisória para esse tormento metafísico. Uma árvore por vez.
É preciso imaginar Sísifo feliz?
Camus encerra seu ensaio com uma das afirmações mais provocativas da filosofia: é preciso imaginar Sísifo feliz. Confesso que tenho dificuldades.
Imagino Sísifo com hérnia de disco e um supervisor cobrando agilidade na entrega da pedra.
Mas a felicidade de Camus não está em gostar do castigo. Está na consciência e na revolta de quem, mesmo diante de um universo sem respostas definitivas, recusa a rendição.
Sísifo não controla a montanha. Não controla a pedra. Mas pode reconhecer a própria condição sem se refugiar em falsas esperanças. É uma forma de resistência.
Talvez a nossa comece quando deixamos de aceitar que toda a existência precise ser útil, rentável ou produtiva. Quando entendemos que não somos apenas cargos, currículos, salários e indicadores de desempenho.
Quando descobrimos que o mundo não acaba se uma mensagem ficar sem resposta até amanhã. Ou quando, apesar do cansaço, encontramos alguns minutos para passear com um cachorro que não faz a menor ideia de quanto custa a ração que come.
Não pretendo romantizar a precariedade. Seria uma canalhice dizer a quem trabalha exaustivamente para sobreviver que basta mudar a perspectiva. Nenhuma epifania filosófica paga a conta de energia.
A pedra continua pesada. E algumas pessoas recebem pedras muito maiores que outras. Mas talvez possamos, ao menos, desconfiar de quem insiste que devemos amá-las.
Neste domingo, 25 de outubro, muitos descansam. Outros trabalham. Alguns preocupados com a segunda-feira antes mesmo de terminar o almoço.
Eu provavelmente, na segunda, estarei tentando colocar minha vida em ordem, enquanto Bento insiste que a vida acontece justamente fora dessa ordem.
E talvez ele tenha razão.
Afinal, se não existe um sentido previamente estabelecido para a existência, isso não significa que tudo seja inútil. Significa que não precisamos aceitar como sagrado o sentido que os outros tentam nos impor.
Podemos encontrar valor numa conversa, num afeto, numa gargalhada, numa tarde sem compromissos. Ou no passeio de um cachorro.

